ESCUTE O QUE A LOURA DIZ

loura da cerveja

Onde está o futuro? Daqui a 100 anos ou hoje?
Dizer que “o tempo é relativo” é martelar sobre o prego gasto de Einstein. Mas, é desnecessário recorrer aos físicos para notar que, de uns tempos pra cá, estamos sofrendo com a percepção alterada do tempo.

Mal saímos de 2013 e já tem gente dizendo que “nesse ano, com Carnaval, Copa do Mundo e eleições, 2014 vai passar rápido!”. Ué, o ano não tem mais os habituais 365 dias da folhinha?

Mas, e se for a nossa relação com a tecnologia que está causando essa ideia de aceleração?

Outro dia, tive a possibilidade de assistir uma palestra sobre steampunk, na Fora.tv. No início, achei que fosse uma desculpa para um grupo cultuar o passado usando roupas e cartolas saídas do séc. XIX. Nada disso, a coisa vai bem mais a fundo.

O conceito é o de ajustar a tecnologia ao seu tempo.

É quase jogar uma mochila cheia de nossos gadgets num De Lorean que dispara rumo ao tempo das locomotivas.
Aliás, a trilogia “De Volta Para o Futuro”, lidou muito bem com as confusões que teríamos ao usar tecnologia do futuro no passado e vice-versa.
Até hoje, perseguimos a ideia do skate voador de McFly ou o capacitor que gerava 1.21 gigawatts com cascas de banana. Pelo menos, o tenis autoajustável já está na linha de produção.

No documentário sobre steampunk, um dos entrevistados compara essa sensação de desajuste tecnológico ao jetlag: “É como se o seu corpo estivesse a frente de sua alma que ficou no passado”.

É cada vez mais difícil ter uma percepção linear da vida. Tudo anda muito rápido ao nosso redor. E o relógio deixou de ser o tradicional medidor de espaços entre tarefas. Hoje, medimos nossa linha de tempo pela timeline. Os outros, e nossas relações com eles, delimitam o espaço que temos na vida.

Basta olhar um pouco para trás e constatar a prova dessa aceleração. O Twitter chegou há apenas 8 anos. O Facebook acaba de completar uma década. Google, que é de 1998, e os primeiros celulares mal passaram dos 15 anos de idade. Todos os grandes referenciais que nos servem de medida ainda não saíram da adolescência.

De vez em quando, a curva do espaço/tempo acelera repentinamente. São momentos de uma guinada tão grande que somos pegos desprevenidos. Uma dessas pisadas no acelerador aconteceu em 2007. Há apenas sete anos, um pequeno evento mudou a relação que estabelecemos entre tempo e tecnologia. Em janeiro daquele ano, Steve Jobs fazia a histórica apresentação do primeiro iPhone.

Logo no início do vídeo ele diz: “Este é o dia que eu busquei por dois anos e meio. De vez em quando, um surge um produto revolucionário. E ele muda tudo o que conhecemos”.

Inaugurada a era dos smartphones, entramos numa espiral que mudaria, para sempre, nossos referenciais. A tecnologia que coloca pessoas em contato tornou o tempo elástico. Todo mundo está sempre online. Whatsapp, Messenger e serviços instantâneos de mensagem encurtam distâncias. Tudo e todos estão acessíveis sem que precisemos nos preocupar se é dia ou noite.

Só que isso tem um preço.

Ansiedade na hora de checar os emails. Esperas intermináveis olhando a resposta da mensagem que nunca chega. Sensação de tempo perdido ao olhar a timeline e ver que as coisas demoram muito para serem atualizadas.

Essa imersão constante em diversas telas já mereceu alguns estudos sobre a alteração de nosso relógio biológico.
Temos em nosso corpo um mecanismo que regula boa parte de nossas funções – o ritmo circadiano. É a variação de luz, dentro de 24 horas, que delimita, por exemplo, a digestão, o estado de atenção, o controle de temperatura e até a renovação das células do nosso corpo.

Há milênios seguimos esse ciclo que é darwiniano. Somente trabalhadores de minas ou habitantes de regiões extremas, que ficavam privados de um período saudável de luz do Sol, apresentavam problemas. Mas, agora, com celulares, tablets e leitores digitais, entramos também nesse grupo de risco.

Nós fazemos o tempo. Antes, ele nos controlava com horários rígidos para tarefas. Era “hora disso, hora daquilo”. Hoje, com o constante acesso aos dispositivos que emitem luminosidade, nosso cérebro já não tem certeza se é dia ou noite. O que desregula o ritmo circadiano não é a luz do abajur que usamos para ler o livro antes de dormir. A alteração acontece pelo excesso de luz azulada que captamos ao ler o mesmo livro no iPad, por exemplo. Ficamos mais irritados e propensos aos casos de depressão.

Sou contra a demonização da tecnologia. Já não troco o Kindle pelo livro de papel. É questão de escolha pessoal. E tenho certeza que o tempo presente sempre será o mais estimulante que poderemos viver. Nesse caso, a conta nunca vai fechar. O truque é usar o conselho que a loura do comercial de cerveja dá no final da propaganda: “use com moderação”.

A.R.

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