A SANGRIA É VOLUNTÁRIA

sozinho

O ritual era diário. Maria mal acordava e já abria o Twitter para comentar a programação matutina da tv. Como os amigos, adorava desenhos animados. Gostava dos mais coloridos e barulhentos. Lá, pela hora do almoço, era hora de postar uma foto de seu prato preferido. Aprendeu a usar como ninguém o filtro “delicious” do Instagram. Depois do soninho da tarde, “curtia no Face” as páginas das lojinhas onde comprava as roupas da estação.

O problema é que Maria, ou Marriah Greene, só tem dois anos e meio de idade. A pequena já tem perfil – ativo! – em todas as maiores redes sociais da internet. Os pais disseram que tomaram a decisão para tornar mais fácil compartilhar o crescimento de Marriah com familiares e amigos.

Desde quando nos tornamos esses seres com uma vontade incontrolável de exibir e dividir os pequenos fatos da vida privada?

O New York Times publicou recentemente um estudo intitulado “A Psicologia do Compartilhamento“. Diz, basicamente, que fazemos isso para passar adiante algo que achamos importante. Também para demonstrar interesse na vida dos amigos e ser altruísta em relação à algumas causas comuns (bullying, homofobia, maus tratos com animais…). Mas, principalmente, dividimos uma informação para ganhar a empatia e admiração alheia. É como dizer: “- Se te mostro coisas legais, eu sou um cara legal”.

Em determinado capítulo existe a afirmação que parece ser a mola desse comportamento: “Só existimos enquanto indivíduo se os outros nos percebem”. Ou seja, o velho “penso, logo existo” foi substituído prontamente pelo “posto, logo existo”.

Fazemos isso diariamente. Várias vezes por dia. Colocamos no Facebook as coisas que gostamos e as que nos indignam. Afagamos o ego dos amigos e brigamos com as autoridades públicas. Protestamos e amamos mais naquele pequeno espaço azul e branco do que na real vida analógica.

Tudo para que saibam quem somos.

Não há mal nisso. Sinal dos tempos. Zuckerberg diria: “- Perdeu playboy. Passa sua vida aí!”. E o pior é que a sangria de dados é voluntária. Ninguém obriga ninguém a nada.

O problema é quando nos sentimos oprimidos ao não fazer parte desse clube. Vai dizer que você ouviu alguém dizer: “- Não acredito que você não tem perfil no Face!”.

Essa tamanha opressão pelo compartilhamento já foi tema de pesquisadora Susan Cain. Em seu livro“Quietos. O poder dos introvertidos num mundo que não para de falar”, ela própria diz que se via sufocada ao ter que dividir opiniões sobre tudo com todos. Cita até o introvertido Steve Wozniak como um perfeito exemplo da sua tese. O criador do computador pessoal e amigo inseparável de Steve Jobs se encaixa no perfil dos que produzem mais no anonimato do que sob os holofotes. Não é à toa que o comportamento avestruz de Woz já redimiu muito nerd tímido por aí.

Enfim, não dá para saber aonde isso tudo vai parar. Cada vez mais nossas capacidades pessoais e profissionais são medidas pelos que frequentam nossos perfis sociais. A cada dia aparece mais uma rede que nos despe. O limite chega próximo ao do risível. Duvida?

Duas companhias aéreas americanas já usam o “social seating“. . Elas deixam por conta dos passageiros a escolha de quem vai sentar ao seu lado no voo pelo perfil do Facebook.

Qual será o preço a ser pago por tudo isso no futuro? Que críticas as próximas gerações nos farão com tamanha exposição?

E, por último, um conselho. Lembre-se de ser simpático ao postar informações na rede. Do contrário, você pode ser aquele cara que senta sozinho lá no fundo do avião.

A.R.

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