Ô, WEB. EU VOU COMER SEU BOLO!

25 anos

Ter uma certidão de nascimento antes mesmo de vir ao mundo. Ser gestada em ventre de pai solteiro. Receber no batismo nome e sobrenome com as mesmas iniciais. Essas foram algumas das peculiaridades que marcaram o início meio sem querer da “www”, a Web.

E, antes que os termos gerem confusão, aqui vai um breve esclarecimento pra quem ainda se confunde. Aquilo que nós, brasileiros, teimamos chamar de “internet”, na verdade, é “web”. A primeira é simplesmente a ligação que existe entre vários computadores. A outra é a interface que recobre tudo e permite você navegar pelos sites. Pegue algumas caixas de azulejos e alguns galões d´água. Os dois são incompatíveis quando separados. Juntos, formam uma bela piscina. É meio por aí.

Há 25 anos, ela foi parida em solo nobre para a Ciência. O berço foi o CERN, na Suíça. E eles não pararam por aí. Continuam gerando manchetes com pesquisas do acelerador de partículas que remontam ao Big Bang. Não, ainda não criaram nenhum buraco negro capaz de engolir o planeta. Por enquanto, pode ficar tranquilo.

Tim Berners-Lee, o pai do rebento, conserva o mesmo jeitão desengonçado e empolgado que tinha aos 33 anos.  Foi com essa idade que desenhou a proposta que impactaria todo o desenvolvimento humano. De lá pra cá, não foi mais possível pensar a sociedade sem a rede – mesmo para aqueles que nunca a acessaram.

Ela, a web, já deixou a adolescência para trás. Quase balzaca, vive uma crise de idade e identidade. Ao mesmo tempo que é celebrada, também é criticada. Diariamente, é acusada de destruir relacionamentos. Ganhou fama de “periguete” e “facinha” ao flertar com a NSA e ditadores árabes. Talvez, por essas estrepolias, seu criador não ande muito satisfeito com seus modos.

Sir Tim diria que o papo “não é esporro, mas ideia”. O conselho paternal vem em forma de preocupação com a privacidade, liberdade de expressão, espionagem e neutralidade.

A edição britânica da Wired – ao contrário da americana que ignorou a data – puxou a brasa para seu conterrâneo. Na capa, estampa a manchete “A web está sob ameaça. É hora de tomá-la de volta”. Dentro, uma série de artigos assinados por pessoas com muita opinião sobre o tema.

WIRED-UK_MAR-14

Para Jimmy Wales, da Wikipedia, a grande contribuição foi o crescimento exponencial e descontrolado da internet. Em países da África, por exemplo, celulares de baixo custo estão fazendo a diferença. Interligam vilarejos sem infra nenhuma, conectam pessoas com interesses comuns e impulsionam pequenos negócios. É a tecnologia de baixo custo, sem apps ou touchscreens sofisticados que gera comunicação onde, antes, só havia silêncio.

O executivo do BuzzFeed foi mais sarcástico ao ironizar a sociedade ultra conectada. Para ele, se o messias retornar, será no meio de uma palestra no TED. E, a plateia, com suas críticas blasés, achará o “the one” extremamente ingênuo e perdido em suas pregações digitais.

– Quantos followers será que @ofilhodohomi teria no Twitter hoje em dia? –

Alguns pegaram mais pesado. Acham que o ideal dourado e colaborativo da web vai na contramão do que a humanidade realmente é por baixos dos panos. Dizem que a web criou segregados digitais, forjou uma ideia de democracia vazia e colocou um megafone na mão dos medíocres. Para Keren Elazari, analista de segurança da GigaOM, “Ela tem o potencial para dividir as pessoas e destruir o mundo” – Nem o arauto do apocalipse teria coragem de dizer o mesmo.

Engana-se quem acha que Tim Berners-Lee sentou à sombra e vive de recolher trocados toda vez que você dá um clique. Ele está à frente do World Wide Web Consortium, o W3C, e da Web Foundation numa tentativa de restaurar os princípios universais da rede: aberta, democrática e descentralizada.

Há anos, justamente por ser tão acessível e desregulada, a web vem sofrendo ataques por diversos flancos. A iniciativa também tem como objetivo dar um puxão de orelha em quem a usa de maneira subaproveitada. “Facebook e outras redes sociais transformam a rede num lugar pequeno, fechado e mesquinho”, diz o criador.

Em junho de 2013, tive a oportunidade de entrevistá-lo para a Globonews. Brasileiros são sempre lembrados em suas falas sobre regulação da internet. O próprio Marco Civil é assunto que Tim acompanha de longe, mas com interesse. “Acho que o Brasil vai ser admirado com muito respeito por ter mostrado liderança nessa área”.

Ele, também, discute uma questão polêmica do projeto: o direito autoral. “A web é livre, mas não é gratuita. Há uma diferença importante. Você é livre para se conectar, mas há coisas que precisam ser pagas, porque são valiosas. Pessoas investiram muito trabalho criativo nelas”.

Vivemos o tempo das descobertas, da super oferta de informação e de um crescente acesso à tecnologia. É maravilhoso estar vivo nesta época que será lembrada como AI/DI – antes e depois da Internet. É mais fantástico ainda poder contrariar Cazuza e dizer que nossos heróis não morreram de overdose. Muito pelo contrário, eles estão por aí e são gente como a gente. Quase.

No fim daquele dia, arrisquei uma última pergunta: “- Se um dia houver uma estátua sua, como criador da web, o que você gostaria que estivesse escrito na placa do pedestal?”. Ele parou meio desconcertado. Pensou, pensou mais um pouco, e disse: “- Eu não sei. Vago, mas empolgante!”. Em referência ao que seu chefe, lá em 1989, escreveu na borda da proposta que fundava a internet.

“- Acho que alguma coisa na placa poderia explicar que eu era só um programador. Que eu não fui escolhido por uma raça alienígena para ser um ser superior e que, como programador, eu apenas desenvolvi algo que me pareceu uma boa ideia. E eu recebi muita colaboração de pessoas empolgadas do mundo todo, especialmente do Brasil. O limite do que você pode fazer é o limite da sua imaginação”.

Dava pra ver que a humildade nas palavras era genuína. Sem pieguice ou falsa modéstia. Ele, realmente, acredita nisso. Eu só não acredito muito quando ele diz que não foi escolhido por alienígenas.

STBL

A.R.

Anúncios

2 comentários sobre “Ô, WEB. EU VOU COMER SEU BOLO!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s