UNIVERSO PARTICULAR

layer

Sempre ouvimos que a maior força transformadora do mundo é a Natureza. Compõe e decompõe tudo o que existe num eterno rearranjo de átomos. Mas nós, os pequenos humanos, estamos nos igualando a ela. Desde que aparecemos neste planeta, nossa função é para construir e destruir. Somos os novos agentes da mudança.

A pele do planeta sempre foi arranhada pelas nossas mãos. Erguemos muralhas, construímos estradas e transpomos o curso dos rios. Subimos ao mais alto dos arranha céus e descemos até a mais profunda das minas.

Tudo tem dedo nosso. E a realização é medida em larga escala. Os grandes vultos que ficaram registrados nos livros de História foram os que construíram impérios ou destruíram nações. Essa é a toada que nos rege.

Mas, de uns tempos pra cá, temos expandido nossa sanha transformadora para outros mundos. Alguns deles, muito mais maleáveis do que o que vivemos. Estamos criando um espaço cada vez mais próprio.

Um universo particular. Só que, desta vez, moldado em bits e bytes.

A realidade virtual sempre foi um dos cálices sagrados da tecnologia. A cada quatro anos retorna com um novo nome. É pra lá que estamos expandindo nossos domínios.

Second Life ficou para trás há mais de 10 anos. Anterior ao Orkut e Facebook, cresceu numa época em que todos queriam mais do que um chat na sala de bate papo do UOL. Era a rede social onde todos iam construir mansões e festejar nas pool parties. Ter dreadlocks louros e sair voando só de sunga era o melhor que nossas máquinas podiam oferecer em 2003. O comportamento era tão antinatural que esse vídeo do Second Life da vida real rende boas gargalhadas até hoje.

Imagine quanto tempo perdemos escolhendo figurinos e formatos de nariz numa eterna customização de avatares.

A novidade para atende pelo nome – curiosamente óbvio – de Oculus. É o mesmo conceito de antes, só que mais robusto na disposição e processamento. Parece ter tanto potencial quanto o disc laser tinha. Mas, nem os 2 bilhões pagos pelo Facebook compensam a vergonha alheia desse vídeo. Adiante até 1:22 e entenda o que estou dizendo.

Mas nem tudo precisa ser tão espetaculoso quanto já foi no cinema dos anos 90. Um bom caso foi o “Passageiro do Futuro” que virou piada num dos últimos NerdOffices sobre VR. Hoje, existem maneiras mais simples de sobrepor o virtual ao real.

Camadas, camadas e mais camadas.

Há uns 20 anos, fomos inundados com os cd-roms que promoviam passeios pelo Louvre, o Coliseu e a Biblioteca do Congresso Americano. Vinham encartados nos jornais de domingo e prometiam uma experiência única ao mostrar as grandes obras do mundo sem que precisássemos sair de casa. Por um bom tempo, foi o crème de la crème para quem tinha um PC. Lembre-se que era uma época em que Tim Berners-Lee ainda era menos do que uma “proposta vaga, mas emocionante”.

O texto no verso da caixa dizia: “Cada pintura vem acompanhada de um retrato e uma biografia do autor. Por meio de hipertexto (palavras que são portas de entrada para outros verbetes), também é possível encontrar informações sobre personagens históricas contemporâneas dos pintores”.

A grande sacada, e que permanece de pé até hoje, é o hiperlink. Com ele, ainda se faz tudo na internet. E um dos seus maiores beneficiários, o Google, soube aproveitar bem todo seu potencial. E foi além.

Pegou uma ferramenta que todos conhecemos e dominamos, o Street View, e acrescentou vídeos e sons. O resultado, foi um passeio com um nível de imersão simples, porém muito satisfatório.

O Google Night Walk passou sem querer por muita gente que adoraria caminhar pelas ruas da antiga Marselha. A brincadeira se revelou tão agradável que é possível escutar os falatórios nos botecos da boemia local, participar de uma sessão de jazz e percorrer os becos que serviram de inspiração para os filmes noir. Bogart quase aparece na penumbra de um deles.

bogie

Dá pra ir aprendendo sobre o lugar sem aquele chatice didática dos guias turísticos. Tem trilha sonora que, além de não incomodar, cria uma atmosfera que favorece quem gosta de ficar fuçando cada quanto do trajeto. É quase um jogo de procurar pistas, só que num cenário hiper-realista.

Por ser tão simples e bem feito, o Night Wallk parece um daqueles projetos que são feitos em momento de ócio criativo. O cara deve ter tirado umas férias do seu trabalho no Google e saiu fotografando a vida noturna de Marselha. Aliás, é bom notar que toda a ação acontece à noite. Você já viu algum lugar do planeta que o Street View tenha registrado sem a luz do Sol? Eu desconheço.

Aqui, cabem duas observações:

– O Google acertou ao acrescentar camadas e níveis de experiência às suas ferramentas já existentes. Então, nada mais natural do que subir o nível aplicando uma tecnologia nova ao projeto. Imagine fazer esse passeio desses com imagens reais, filmadas em primeira pessoa com um Google Glass. Uau! Na minha opinião, perderam a oportunidade #fildik.

santa teresa

– E que tal abrir esse tipo de oportunidade para qualquer pessoa? Seria incrível trabalhar com ferramentas de customização do Street View, notas de voz e vídeos do YouTube para criar “caminhos particulares”. Bastaria escolher uma meia dúzia de quarteirões – Santa Teresa, no Rio, seria uma locação perfeita – e criar um tour pessoal que ficaria disponível para visitantes conhecerem o local.

As opções são imensas. Mesmo que duas pessoas distintas escolham o mesmo quarteirão, um passeio poderia ser “gastronômico” e o outro “arquitetônico”.

Mesmo com todo nosso potencial de transformação físico de um determinado lugar, essas ferramentas tornam as possibilidades infinitas. Sons, vídeos, notas escritas podem transformar a paisagem como nenhum mapa em duas dimensões poderia fazer.

O mundo de é muito maior do que o de nossos avós. E podemos fazê-lo muito mais amplo para nossos netos. Basta lembrar que, hoje, ele é feito de camadas. E elas podem ser sobrepostas. Sem limites.

A.R.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s