SOMOS TODOS AUTISTAS

aaaaaaaaaah!

Ter perfil em rede social é deixar a porta da cozinha destrancada. As pessoas vêm e vão sem a menor cerimônia. Impossível manter uma postura firme quando os amigos – e, mais ainda, os “amigos dos amigos” – invadem sua caixa de comentários com opiniões tão divergentes que, se estivessem numa mesa de bar, voariam cadeiras e garrafas.

2014 fincou pé como um ano nada fácil para aqueles de ânimos exaltados. Teimamos discutir assuntos que jamais deveriam ser debatidos em fórum público. Dentre esses, existem três grandes que a sabedoria popular consagrou como os mais perigosos.

Religião é tabu. Impossível agradar gregos e troianos. Criacionistas e evolucionistas. Católicos e evangélicos. Cada grupo toma como correta sua doutrina. O dogma não aceita argumentação. Melhor fazer uma oferenda pro seu orixá e rezar três padre-nossos pedindo proteção. Mantenha a calma e, se rolar provocação, ofereça a outra face.

Futebol já deu. Esvaziamos a paixão durante a Copa do Mundo. Depois dos 7×1, só queremos voltar a falar de futebol em 2018. Que venha a Rússia! Eu, que tenho o time na zona de rebaixamento, pendurei as chuteiras pra esse assunto.

Agora, é hora de discutir outra categoria que também nos assombra de quatro em quatro anos. Apesar do desânimo com a conduta dos nossos políticos, eleição é tema carregado de posicionamentos fortes e muito bate-boca.

Dia desses, piscou uma notificação no meu Facebook. Era o desabafo de uma amiga procurando explicações para comportamentos tão diferentes entre amigos de timeline.

“Estive vendo a entrevista da Dilma no JN, enquanto lia o feedback no Twitter. E é incrível como cada um interpreta de forma completamente diferente. Uns aplaudindo e outros vaiando na mesma medida, como se fossem transmissões distintas. Cada um apoiado nas suas crenças – autistas da informação. Sempre fomos assim? Será que agora é mais aparente por causa das mídias sociais?

Esse é um daqueles momentos em que a gente para, coça a cabeça e olha em volta perguntando: “será que eu também sou assim?”.

A amiga, inclusive, cunhou um termo que resume bem o que nos tornamos. Somos autistas da informação quando queremos defender um ponto de vista.

Raros são aqueles que dão espaço para a argumentação alheia. Mais raros, ainda, os que mudam de opinião depois de ouvir o outro.

Um fato curioso não é a discordância, mas a concordância extrema. Somos seres sociais e buscamos a companhia daqueles que pensam como a gente. Só que, de uns tempos pra cá, a internet anda fazendo isso pra gente e de forma deliberada.

Sites como o Google – e, mais ainda, o chinês Baidu – apresentam resultados diferentes para duas pessoas mesmo que elas façam uma busca com palavras-chave idênticas.

Algoritmos, criados pra dar conta de milhões de consultas, são alimentados com nossas escolhas e preferências. Só que essa dieta de dados, também nos emburrece a longo prazo.

Apesar de cada vez mais difundido, o conceito de “filtro-bolha” ainda permanece desconhecido para muita gente. A palestra de Eli Pariser no Ted é de 2011, mas não envelheceu.

 

Pariser diz que quanto mais você procurar uma coisa, mais ela estará disponível para você. Isso parece bom, mas vem acompanhado de um ônus. Se, na mesma medida, você eliminar assuntos que não gosta, eles sumirão da sua timeline.

Ainda parece bom pra você? Não se esqueça que o preço disso é a alienação. No fim, você conversará com pessoas iguais a você e deixará de receber opiniões contrárias.

Tem gente que prefere dessa maneira. Conheço muitos assim. Mas, se você acha que a graça da vida é a diversidade de opinião, é preciso ser mais consciente e não escolher sempre os primeiros resultados apresentados pelo Google.

Redes sociais com assuntos bem definidos surgiram como uma opção confortável para quem quer mais do mesmo. Por aqui, já tivemos uma criada por Ronaldinho “Fenômeno” e Zico.

Pnera.com foi um espaço de encontro criado por boleiros e para boleiros. O objetivo era juntar profissionais e amadores para falar de futebol em 100% dos tópicos. Curiosamente, saiu do ar pouco tempo depois. A justificativa foi a baixa adesão.

Mat Honan, repórter da Wired, desafiou o poderoso algoritmo do Facebook na tentativa de criar a sua própria bolha particular. Durante 48 horas, deu “likes” em tudo o que aparecia na sua timeline.

Foram mais de 1.000 curtidas para descobrir que, no fim, estava inundado por propagandas de grandes marcas e opiniões extremadas de gente que nem conhecia.

O estrago foi tão grande que ele pensou seriamente em deletar o perfil. De quebra, recebeu vários comentários de amigos perguntando se seu computador havia sido hackeado.

Muitos estranharam a mudança repentina de comportamento. Isso prova que um algoritmo ainda não é capaz de observar mudanças de caráter.

Alguns amigos ainda são.

(Alexandre Roldão)

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