UM TROCADINHO, POR FAVOR

mendigo com computador

Você, como a maioria das pessoas, deve trabalhar em um emprego com parâmetros regulares. Escritório em prédio comercial, lugar fixo com mesa, cadeira e um telefone. Tem hora para entrar e sair. Quem sabe, até um cartão de ponto.

Essa é a rotina profissional de muita gente. Mas já parou pra pensar quanto tempo do seu dia você gasta trabalhando de graça, por exemplo, para o Facebook?

Segundo dados da consultoria Brain Statistics, existem mais de 1.3 bilhões de usuários ativos por mês. Eles passam, em média, 18 minutos por dia logados no site. Parece pouco, mas se você seguir esmiuçando as estatísticas verá que os números não são nada pequenos. Fazendo as contas, ao fim de um mês damos 15 horas de nossa vida.

Em um ano, seriam dois dias e meio sem dormir e nem levantar para ir ao banheiro ou comer. Só postando, postando e postando.

Você, com certeza, conhece um amigo que gasta muito mais horas.

Em 20 minutos – tempo que você leva num almoço rápido – a quantidade de links compartilhados passa de 1 milhão. O número de solicitações de amizade chega perto dos 2 milhões. E a quantidade de mensagens enviadas extrapola os 3 milhões.

Hoje, somos 1.3 bilhões de perfis que desempenham o papel de jornalistas, escritores, fotógrafos, psicólogos e humoristas. Todos trabalhamos horas e horas a fio criando conteúdo para a rede de Zuckerberg. Tudo de graça.

Nesse ponto, você para e pensa: “ah, é só uma rede social. Estou só me divertindo e conversando com os amigos”. O Facebook, que vale 140 bilhões de dólares, lucra zilhões com nossos textos, piadas e fotos. Fora isso, nossos dados e hábitos são, literalmente, vendidos para um sem número de empresas que usam isso em publicidade in/direta.

O modelo de negócio de muitos sites ainda é confuso e, muitas vezes, dissimulado. Nesta matéria dá pra ver a ponta do iceberg e entender como Facebook, Twitter e LinkedIn ganham dinheiro com o que você posta.

Não existe mais a separação entre atores e plateia. Eu e você somos geradores, curadores e consumidores de conteúdo. No fim, fica cada vez mais difícil saber se somos usuários ou funcionários da rede.

Por isso, Laurel Ptak, professora da New School e editora do Undoing Project resolveu publicar um manifesto chamado “Wages for Facebook”.

O texto escrito “preto no branco” fica constantemente passando como se quisesse transmitir sua mensagem a qualquer custo. Mesmo que você queira, ele não para de repetir a mensagem.

“DIZER QUE QUEREMOS UM PAGAMENTO DO FACEBOOK É O PRIMEIRO PASSO PARA RECUSAR O DINHEIRO. DEMANDAR UM SALÁRIO FAZ COM QUE NOSSO TRABALHO SE TORNE VISÍVEL. ESTA É A PRIMEIRA CONDIÇÃO PARA LUTAR CONTRA TUDO ISSO”.

Laurel diz que as coisas são simples. Se nosso trabalho faz o FB lucrar, então merecemos uma fatia do bolo. O manifesto se parece muito com o que era discutido nas assembléias sindicais dos grandes grupos de trabalhadores.

Foi discutindo o valor do trabalho braçal que chegamos a discutir quanto deve custar a hora de trabalho intelectual. No fim do manifesto, uma lembrança pra quem ainda acha que “tudo bem”.

“TER UM SALÁRIO FAZ PARTE DO CONTRATO SOCIAL. VOCÊ NÃO TRABALHA PORQUE GOSTA. MAS PORQUE ESSA É A ÚNICA CONDIÇÃO QUE TE PERMITE SEGUIR VIVENDO. MAS MESMO EXPLORADO, TENTE LEMBRAR QUE VOCÊ NÃO É O SEU TRABALHO”.

Você acabou de ler esse texto sem desembolsar nenhum centavo. Tudo bem, é por uma boa causa e a gente faz com satisfação. Só me dêem licença porque eu preciso ir até ali bater o meu cartão de ponto.

(Alexandre Roldão)

 

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