GAIOLA DE VIDRO

foto gaiola

As máquinas vão dominar o mundo. Não adianta chorar ou espernear. O cinema já mostrou, os religiosos já proclamaram e até Stephen Hawking alertou. A vaca já está com as quatro patas no brejo. O que nos resta é a maneira como vamos entregar o ouro ao bandido.

Por enquanto, estamos passando longe da violenta Skynet. O cenário é o de uma conquista pacífica ao som da voz rouquinha da Scarlett Johansson. Eu #curti.

E digo mais. Vamos entregar tudo de bandeja e com um sorriso no rosto. Vai ser tipo seleção da Alemanha na pequena área. É por isso que sempre odiei Nicholas Carr. Desde que li “A geração superficial – O que a Internet está fazendo com os nossos cérebros” cunhei um apelido pejorativo pro cara: arauto do apocalipse.

No livro, que é de 2010, ele já alertava para a mudança que internet vinha provocando na nossa maneira de pensar e nos transformava, gradativamente, em seres com opinião rasteira. A crítica ficava por conta do uso excessivo de redes sociais e da replicação contínua das mesmas ideias.

O cara tinha razão.

Ele nem precisou reinventar a roda pra mostrar que nos tornaríamos uma multidão que fala, repete e compartilha as mesmas coisas. A timeline do Facebook parece um eterno “Dia da Marmota”. Pela manhã, rimos, ainda na cama, com as variações infinitas dos vídeos de gatinhos. À tarde, instagramamos nossos almoços e lanchinhos. E, à noite, praticamos o sofativismo assinando petições que nunca irão se materializar.

E, como isso tudo já não fosse suficiente, Nicholas Carr agora vem com “The Glass Cage/ A Gaiola de Vidro – nós e a automação” (em tradução livre). Para ele, tudo começa com uma pequena relação de confiança. Começamos a delegar, não só as tarefas braçais, mas, também, as atividades sociais e intelectuais para as máquinas. Criamos, ao longo do tempo, uma relação de dependência.

Em breve, o mundo estará cheio de carros autônomos do Google e drones que entregarão pizzas de calabresa pelas nossas janelas. Um belo exemplo é o vídeo que mostra a central de distribuição da Amazon. Os alaranjados robozinhos kiva lembram os atarefados duendes da fábrica de Papai Noel.

Toda essa eficiência tecnológica pode ser usada para expandir a experiência humana. Em hipótese, ganharíamos mais tempo para desfrutar com a família e pensar na vida. Seria uma segunda Revolução Industrial. Sai o vapor, entra o wifi.

O problema, avisa Carr, é que a automação pode nos afetar a ponto de debilitar habilidades físicas e mentais. Um dos casos mais emblemáticos foi o dos pilotos do voo 447 da Air France. Na excelente reportagem de William Langewiesche para a Revista Vanity Fair (traduzida aqui para a Revista Piauí), o excesso de confiança dos pilotos na tecnologia – e, por consequência sua falta de ação na hora da pane – foi a razão para a morte de 228 pessoas.

“a confusão parece ter suas raízes no próprio progresso em matéria de pilotagem e engenharia aeronáutica que tanto contribuiu para melhorar a segurança aérea nos últimos quarenta anos. Em suma, a automação tornou cada vez mais improvável que pilotos de linhas aéreas tenham de se defrontar com graves crises durante o voo – mas também tornou cada vez mais improvável que sejam capazes de lidar com esse tipo de crise caso ela ocorra. É por isso que, para muitos observadores, a perda do Air France 447 se afigura como o mais intrigante e significativo acidente aéreo dos tempos modernos.”

Outra reportagem notável, desta vez no New York Times, faz um retrato impressionante do uso de softwares inteligentes para programar rotinas de trabalho e o impacto sobre as vidas de trabalhadores.

O Starbucks resolveu implementar programas que ajudassem os gerentes das lojas a otimizar o horário dos funcionários. De acordo com o movimento, o software dispensava ou acionava um determinado número de empregados para a loja.

Se a previsão para a manhã seguinte era de tempo chuvoso e frio, o programa “pensava”: melhor chamar mais gente para atender um maior número de clientes. Se, no mês seguinte, começava o calor e as vendas de lattes e frapuccinos caiam no meio da tarde, então era melhor dispensar funcionários.

Na prática, tudo na mais perfeita ordem.

Só que isso tudo gerou um dominó de problemas. Vários funcionários ameaçaram pedir demissão por não terem uma escala fixa de trabalho. Muitos não sabiam quantas horas e nem o número de dias que iriam trabalhar por semana. Por consequência, não sabiam quanto teriam de salário no fim do mês.

Uma das empregadas disse que essa automação causou problemas dentro da família. Por conta das constantes mudanças de horário indicadas pelo sistema, ela foi obrigada a parar os estudos e ficar em casa para cuidar da filha pequena.

No fim das contas, o Starbucks resolveu mudar sua política de softwares inteligentes e rever a situação de 130.000 funcionários nos Estados Unidos.

Essa relação com o progresso tecnológico é tão essencial quanto preocupante. O livro de Nicholas Carr é um alerta para o bom uso da automação. Uma função que deveria complementar nossas capacidades humanas, nunca substituí-las.

(Alexandre Roldão)

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