HIPERCONECTADOS – O FIM DA AUSÊNCIA

Qual foi a última vez que você ficou completamente desconectado por um dia?
O máximo que consegui foram umas 12h agora nas minhas férias.
A ideia era passar dois dias isolado em Ilha Grande, longe das redes sociais.
Até comecei bem, fazendo uma caminhada numa trilha paradisíaca com praia e cachoeira. Só que, mais tarde, quando cheguei na pousada… o wi-fi foi irresistível!
Pra muita gente, ficar várias horas desconectado é enlouquecedor.
E acho que só aguentei tanto tempo porque faço parte de uma geração que um dia já viveu sem a internet.
Mas será que os nascidos na era digital conseguem ficar longe dela?
E quais as consequências da hiperconexão?
Essas questões estão no livro “The End of Absence” (“O fim da ausência”, em tradução livre, ainda sem versão em português).

TheEndofAbsence_JKF

A reflexão é extremamente atual e importante.
Por exemplo, o que pode acontecer se não tivermos mais nenhum momento de ausência?
A pergunta parece boba. Mas é preciso lembrar que estamos perto de chegar, pela primeira vez na história, num ponto em que provavelmente será impossível vivermos desconectados.
Ninguém vai mais saber o que é estar sozinho, não no sentido físico, mas mentalmente, apenas com os próprios pensamentos. Sempre haverá um dispositivo ligado à rede perto da gente.

O autor do livro, Michael Harris, diz que vivemos atualmente num estado contínuo de atenção parcial. Isso tem uma série de implicações. Desde a falta de tempo para lembrar das memórias, ou das condições ideais para um processo criativo. Isso só é possível, segundo ele, num momento de ausência.
É fácil perceber essa angústia de estarmos o tempo inteiro ligados, e como nos adequamos sem perceber. Quem usa WhatsApp (alguém não usa?) fica de olho pra ver se a pessoa do outro lado já leu a mensagem e espera uma resposta imediata. É um ciclo veloz, com pouca reflexão, e que às vezes gera ruídos nas redes sociais.
Outros efeitos desse mundo acelerado já foram analisados aqui no Labmídia.

People who are socially isolated may be at a greater risk of dying sooner, a British study suggests. But do Facebook friends count? How about texting?

No livro, o autor questiona o futuro da automatização de nossas decisões. Se estamos o tempo inteiro conectados e assessorados por diversos aplicativos, é provável que passemos a delegar cada vez mais decisões pessoais para as máquinas. A inteligência artificial e a internet das coisas vão acelerar esse processo.
Harris descreve os mecanismos sedutores da tecnologia e como nosso cérebro se torna “viciado” em estar conectado. Por isso, acha que é cada vez mais difícil optar pela ausência.
O livro é um tanto alarmista. Parte do princípio que vamos perder algo importantíssimo – a ausência – e que as consequências devem ser irreversíveis.
Acho que ainda é cedo pra afirmar isso. Ao longo da história passamos por transformações tecnológicas profundas e nem por isso deixamos de seguir em frente. Ganhamos por um lado, perdemos por outro.
Mas fica o alerta. Nós, a última geração do sentimento da ausência completa, somos guardiões dela, ainda que na memória.
Pense nisso.
Sozinho, desconectado, se ainda for possível.

(Rafael Coimbra)
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5 comentários sobre “HIPERCONECTADOS – O FIM DA AUSÊNCIA

  1. Estou apavorado de como as pessoas estão viciadas e não notam. Chegamos a um tempo que para mim não são as pessoas que carregam os celulares, mas os celulares que carregam as pessoas. Todo mundo andando de um lado pro outro com a cabeça reclinada para baixo atento a uma tela que sinceramente não acrescenta nada em sua vida. As pessoas estão se auto-destruindo e destruindo tudo que está ao seu redor. Ainda ficam aborrecidas quando reclamamos com elas, não admitindo o vício. Estão parecidas com os viciados, seja em drogas, bebidas alcoólicas, jogos… que quando você oferece ajuda a primeira reação é não aceitar achando que não precisam. Sinceramente, acho que não tem mais jeito devido as propagandas em massa veiculadas relacionadas a isso. É triste ver o afastamento das pessoas, o isolamento, isso só demonstra o quão individualistas e tristes estão. Mas mesmo assim insistem em mostrar nas redes sociais uma falsa felicidade. Falo isso não por conta da internet (que é muito importante quando usada corretamente), mas pelas redes sociais. As pessoas desprendem horas em demasia vendo ou postando imagens ou vídeos, que sejamos sinceros, 90% é pura futilidade.

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