A INTERNET SOMOS NÓS

Antes de mais nada: Feliz 2016!
Geralmente no início do ano fazemos planos e gostaria de aproveitar esse momento pra incluir você num debate importante: o que fazer com “a internet”?
Calma, explico.
Passei boa parte do ano passado estudando grandes críticos tecnológicos. Gente que acha que o uso que fazemos da rede tem consequências negativas, às vezes devastadoras.
O senso comum, criado principalmente pelos entusiastas do Vale do Silício, é que a “Internet” é uma entidade independente, sábia, soberana, democrática, incapaz de fazer mal a alguém. É como se ela tivesse vida própria e hoje existisse solução pra tudo, bastando encontrar o aplicativo certo para o problema.
Só que as coisas não são tão simples assim.
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Imagino que, como eu, você também tenha achado 2015 um ano de certa forma “negativo”. Olhando para as redes sociais e os efeitos delas sobre nós penso que 2015 foi um ano de “congestão tecnológica”. Muita coisa acumulada veio à tona. Nos sentimos mal mas pouca gente parou pra pensar no fundo no que está acontecendo.
Quem me conhece sabe que um dos meus mantras digitais é “tecnologias não são boas nem más: os humanos é que são”.
Durante muito tempo achei que a grande rede se encarregaria de ajustar os ponteiros, corrigindo os “erros” e levando a gente para ou caminho “certo”.
A questão é: quem define o que certo e o que é errado? Estamos conscientes dos efeitos tecnológicos em nossas vidas?
Abaixo listo alguns livros e pontos que considero importantes.
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No livro “To save everything, Clik Here: The Folly of Technological Solutionism”, Evgeny Morozov quesitona o papel messiânico na tecnologia, como se qualquer problema da terra pudesse ser resolvido com clique. Ele chama essa corrente de “solucionismo”e diz que hoje vivemos na era do “Internet-centrismo”, o que ele considera uma religião.
Estamos num ritmo frenético em busca sempre de algo novo. É como se a novidade fosse boa e, o velho, ruim.
Morozov questiona também o solucionismo na política. Ele acha que é uma ilusão substituir políticos pela “internet”. Aliás, em outro livro (The Net Delusion) ele mostra como a internet pode ser usada contra, e não a favor da população.
Quem não tiver tempo de ler o livro pode dar uma olhada nesse outro texto de 2010, que questiona o poder das redes sociais em transformações políticas.
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Enfim, será que tudo precisa ser “corrigido”? Um pouco de imperfeição não é bom?
E mais: será que não estamos tirando o caráter humano das coisas?
Quando entrevistei o jornalista Michael Pollan, no lançamento de um livro sobre a história da cozinha perguntei a ele: “Qual o sentido de cozinhar hoje se podemos jogar tudo no microondas e, daqui a pouco, deixar os robôs fazerem o trabalho pra nós?”. Ele respondeu com uma pergunta provocadora: “E você vai fazer o que com mais tempo livre: gastar no Facebook?”.
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Outro crítico ferrenho dos rumos tecnológicos é Andrew Keen, rotulado de o “Anti-Cristo da Internet”. Tive a oportunidade de entrevistar Keen quando ele esteve no Brasil lançando o livro “Digital Vertigo”. Achei o livro chato, prefiro o anterior: “The Cult of the Amateur: How Today’s Internet Is Killing Our Cuture”.
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Ano passado li “The Internet Is Not The Answer”. Apesar de também ter achado um livro meio repetitivo e com argumentos não tão consistentes, Keen segue a mesma linha de Morozov e bate forte na ideologia de uma internet salvadora de todos os males.
Ele tenta provar o oposto: a disrupção digital estaria provocando mais desemprego e matando a criatividade (e a remuneração sobre ela). Keen também chama a atenção para as grandes corporações que estão por trás de quase tudo o que consumimos digitalmente, principalmente o grupo conhecido como GAFA (Google, Apple, Facebook, Amazon). Temos a impressão de que essas grandes empresas nos oferecem benefícios gratuitos. Mas no fundo ganham muito dinheiro às custas de nossas informações pessoais.
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Pra completar a lista dos questionadores recomendo a leitura do novo livro da Sherry Turkle: “Reclaiming Conversation – The Power of Talk in a Digital Age”.
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Também já entrevistei a pesquisadora, uma das maiores pensadoras sobre comunicação digital da atualidade. Em breve vou comentar aqui no Labmidia esse livro dela com mais detalhes.
Sherry Turkle mostra o impacto da tecnologia sobre nossa forma de conversar e diz que precisamos repensar o uso excessivo de interfaces digitais, principalmente dos smartphones.
Pra fechar recomendo o livro “Smart – O que você não sabe sobre a internet”.
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O livro de Frédéric Martel não faz uma crítica como os outros. Mas é importante para pensar como a “Internet” é diversa. Nós, ocidentais, democratas e capitalistas tendemos a achar que a “Internet” é a mesma no mundo inteiro. Não, não é. Cada cultura molda uma “internet” localmente de acordo com seus valores. Essa diversidade é importante se quisermos construir uma grande “Internet” formada por pequenas “internets”.
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Ao longo de 2015 trouxemos alguns outros pontos de vista críticos aqui no Labmidia (“Hiperconectados” e “Gaiola de vidro“).
Não sou tão pessimista quanto alguns autores. Tendo a ver mais pontos positivos do que negativos no mundo digital. Mas hoje já não sou tão “purista”. Tenho a convicção que nada se resolve sozinho e que não existe um caminho único pra a construção da grande rede.
2016 é o ano de assumirmos as rédeas tecnológicas. Nós, cidadãos, não podemos ficar passivos diante do progresso. À medida que a “Internet” cresce muita gente toma conta dela e interfere em nossas vidas. Precisamos nos dar conta de como a “Internet” está sendo formada e discutir pra onde queremos ir.
Termino com uma das frases que mais gosto do McLuhan: “Nós moldamos as tecnologias, depois as tecnologias nos moldam.”
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(Rafael Coimbra)

 

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2 comentários sobre “A INTERNET SOMOS NÓS

  1. Obrigado pelas indicações.
    O livro The Second Machine Age, dos pesquisadores do MIT Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee, os mesmos autores do similar Race Against The Machine, é menos crítico, mas levanta grandes dúvidas sobre o impacto das novas tecnologias no futuro, principalmente no emprego e no desenvolvimento. Além da Internet, aplicativos, etc, são analisadas as novas capacidades de computação cognitiva e outras. Dá frio na espinha até para mim, insuspeito de tecnologicofobia!… E olha que nem falam ainda de computação quântica!

  2. Obrigado pelas indicações.
    O livro The Second Machine Age, dos pesquisadores do MIT Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee, também autores do similar Race Against The Machine, é menos crítico das novas tecnologias. Mesmo assim levanta questões e dúvidas muito importantes acerca do futuro, principalmente no que tange a emprego e desenvolvimento. Mesmo um insuspeito de tecnofobia como eu (fiz o doutorado em Engenharia de Sistemas e Computação) fiquei bastante impressionado com a discussão.
    Abraços.

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