ALÉM DA NOTÍCIA

Esse texto foi inspirado num bate-papo sobre o futuro do jornalismo, na Campus Party 2016. Levantei uma discussão a respeito do impacto de tecnologias emergentes no modo de produção e consumo de conteúdo como a realidade virtual e inteligência artificial.
Num determinado momento alguém da platéia perguntou se a objetividade e a imparcialidade – dois pilares do jornalismo clássico – estariam em xeque.
Respondi que tenho pensado muito nesse tema e que a minha teoria é termos entrado numa era que batizei de “Jornalismo Commodity”.
Commoditity é um termo muito usado em economia pra classificar produtos comercializados em grande escala, sem diferenças significativas entre eles. Exemplo: açúcar, milho e petróleo. Pra quem compra esses produtos o que vale, no fim das contas, é o preço. Tanto faz se veio da China ou ali da esquina.
E onde entra no jornalismo nisso?
Minha tese é que:
Tanto os meios de produção (tecnologia) quanto o produto final (notícia) viraram uma uma espécie de commodity.
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commodity

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No caso da tecnologia só o grandes veículos de comunicação eram capazes de produzir e distribuir conteúdo audiovisual com qualidade técnica. Hoje basta usar o Periscope para entrar ao vivo em qualquer canto do mundo. Filmar, editar, distribuir reportagens, tudo ficou acessível. A geração mais nova tem uma facilidade absurda em produzir conteúdo e uma naturalidade em se expor diante do público. É um fenômeno recente, acentuado de uns 5 anos pra cá. Isso não quer dizer que qualquer pessoa virou um super repórter ou um grande empresário de mídia de uma hora pra outra.
A Era dos Amadores acabou.
Mas esse é um assunto que deixo para um próximo texto.
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Voltando ao “jornalismo commodity”, a notícia também sofreu um processo parecido de equiparação. Quem pula de um grande portal de notícias para outro percebe que as matérias são bem parecidas. Ou, pelo menos, as manchetes. Numa época em que a maioria lê apenas o primeiro parágrafo, saber do que se trata a notícia já basta. E isso não difere muito de um lugar para o outro.
Fora a infinidade de sites que copiam e colam o material dos portais sem deixar a prática clara. Pra completar, o conteúdo é replicados infinitamente nas redes sociais. Ah! e já tem robôs escrevendo reportagens.
Quando uso o termo “notícia” não me refiro a grandes reportagens investigativas e sim ao que chega de maneira padronizada aos jornalista. Exemplo: indicadores oficiais, fala de autoridades, informações de serviços etc. Claro que os fatos precisam ser verificados. Mas, antigamente, a presença de um jornalista para produzir determinados tipos de notícias era fundamental. Hoje, basta que apenas um veículo divulgue (ou a própria fonte da notícia) para que muita gente copie e cole o conteúdo.

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Se a tecnologia e a notícia deixam de ser um grande diferencial o que resta ao jornalista?
Aqui entra minha segunda tese: estamos vivendo a Era da Emoção. Se você notar bem vai perceber que existe uma onda de repórteres e apresentadores mais “gente como a gente”.
Informar apenas não é o suficiente. Isso pode ser obtido cada vez mais em qualquer site ou nas redes sociais. Mas ouvir a história contada por alguém que participou do fato, que ficou feliz ou se indignou com alguma situação, causa uma relação de empatia com o comunicador. E essa pitada “humana” marca a transição da notícia em estado bruto, racional, objetiva para uma história contada por “alguém de verdade”. Antigamente os comunicadores atuavam basicamente como divulgadores de informações. Essa função hoje é dividida com outras pessoas e veículos. Então é preciso ir além, agregar valor à notícia. É aí que entram a análise e a emoção. Muitos jornais e sites abriram espaço para colunistas. No caso de veículos que trabalham com áudio e vídeo, o toque pessoal de cada um pode ser visto e ouvido. O público tem a necessidade de se identificar com quem está do outro lado. Quer saber o que aquela pessoa pensa e sente, mesmo que discorde dela. O importante é não agir como um robô e sim como uma pessoa qualquer. Parece fácil mas combinar técnica jornalística com naturalidade dá trabalho.
Em alguns casos há exagero por parte do comunicadores. Na intenção de agradar o público tem gente que perde um pouco o tom. Mas faz parte do jogo.
O jornalismo é uma profissão viva, muda constantemente sob a pressão de fatores culturais e tecnológicos.
E atualmente vivemos o momento mais turbulento de todos.
Os pilares básicos do bom jornalismo não vão acabar nunca: apuração precisa, ouvir todos os lados etc. Mas só isso já não basta.
Açúcar, farinha e cacau são apenas commodities. Mas nas mãos de um bom cozinheiro viram um saboroso bolo de chocolate.

(Rafael Coimbra)

 

 

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