BEIJO. ME TECLA

Com quantas pessoas você conversa por telefone? Digo, falar mesmo, ligar pra alguém e bater papo?
Quando foi a última vez que você se comunicou com alguém usando vídeo (facetime, skype etc)?
E com quantas pessoas você troca mensagens por texto?
É bem provável que você use mais texto. Mesmo com recursos avançados de áudio e vídeo. Você já parou pra pensar nisso?
_
turkle2.jpg_
A queda vertiginosa na receita das operadoras de telefonia mostra bem esse fenômeno.
Em parte ele é explicado pelo alto custo das operadoras no Brasil. Trocamos ligações e SMS pelo WhatsApp. Mas isso só não basta pra descrever essa tendência.
Mesmo quem tem grana e pode pagar o melhor plano 4G ilimitado, com smartphone de câmera 4K, ainda assim evita o contato pela voz e, principalmente, pelo vídeo.
Se você quiser entender um pouco mais porque isso acontece leia o novo livro da Sherry Turkle: “Reclaming conversation: The Power of Talk in a Digital Age”.
______
s2
Sherry Turkle é pesquisadora do MIT, uma das mais dedicadas ao impacto das tecnologias sobre a comunicação humana.
Tive a oportunidade de entrevistá-la quando lançou o seu livro anterior: “Alone Together: Why We Expect More from Technology and Less from Each Other”.
_
s1_
A autora já se mostrava incomodada pela interferência dos aparatos tecnológicos em nossas relações. Ela chamava a atenção para a sensação de parecer estarmos cada vez mais juntos quando na verdade estamos sozinhos (um sozinho conectado).
Agora ela faz uma defesa do resgate da conversa nos moldes antigos, cara a cara.
O ponto central de Turkle é que o contato pessoal, principalmente visual, é a forma mais forte de conexão humana.
Só que estamos perdendo essa característica em função dos avanços tecnológicos.
Conversar por meio de interfaces digitais é mais prático e menos doloroso.
Turkle diz que estar sozinho e desconectado requer esforço. Então, em vez de usarmos esse período a sós pra pensar, preenchemos ele como conexões digitais.
A ausência, segundo ela,  é importante não apenas para exercitar a criatividade mas também para que a pessoa se prepare e fique segura para conversar.
O fato é que quando nos sentimos incomodados com a solidão buscamos proteção na tecnologia.
É provável que esse sentimento de ausência acabe pra sempre. A nova geração nasceu sem saber o que é isso. Já comentamos aqui no Labmídia.
_
turkle7_
Além de tornar as pessoas mais frágeis emocionalmente a hiperconexão digital faz com que elas percam a capacidade da empatia e de avaliar o que o outro sente.
Isso porque estamos prestando cada vez menos atenção à linguagem corporal. Tudo se resume ao texto.
Quem usa redes sociais tem mais dificuldades em entender as emoções dos outros e as próprias.
Mesmo quando estamos diante de outra pessoa o smartphone faz parte da conversa. Na nova cultura interromper um papo não é visto como falta de educação e sim como uma nova conexão. É como se entrasse mais um na sala de bate papo real+virtual.
Existe até um termo para isso “phubbing”: a arte de conversar com alguém olhando e teclando o tempo inteiro.
Pra quem nasceu usando texto a atenção parcial contínua é o padrão.
Estudos mostram que, quando um smartphone está presente – mesmo com a tela pra baixo – a conversa é afetada.
Num papo ao vivo temos que responder na hora aumentando a exposição dos nossos sentimentos. Mas quando estamos distantes a conversa por texto e imagens é editável. Criamos um personagem ideal num mundo ideal.
Além disso, nas redes sociais, muitas vezes os “amigos” servem apenas como uma forma de apresentarmos nossas ideias. Queremos ser referendados, ganhar um like. Há pouco investimento em ouvir de fato o que o outro pensa ou sente.
E, no fim das contas, numa conversa digital você sempre pode sair sem incomodar quem está do outro lado.
Turkle entra ainda no tema privacidade.
Ela lembra que antigamente nossas ideias eram guardadas em segredo, em diários, porque o auto conhecimento obtido em momentos de ausência nos tornava vulneráveis. Só contávamos o que sentíamos de verdade a poucas pessoas de confiança, pessoalmente. Agora a nova cultura nos estimula a compartilhar o que pensamos abertamente. Você reflete em quando compartilha.
O problema, como já disse, é expor apenas o lado colorido da vida. Não existe botão de “dislike”.
_
turkle3.png_
Em algum momento todas essas relações por meio de interfaces digitais vão ser tornar tão comuns que nem vamos pensar nisso. O novo jeito de se comunicar vai ser o “natural”.
Isso gera um alerta em relação aos mais jovens. Como nosso cérebro é plástico, deixar de estimular algumas partes faz com que elas não se desenvolvam. Quando uma criança não conversa naturalmente como os pais e com os amigos a tendência é que ela perca logo cedo a capacidade de perceber sentimentos por meio da linguagem corporal.
Turkle cita estudos para mostrar que essa perda já está mais evidente entre estudantes.
E o futuro?
Em vez de falarmos por meio das máquinas vamos conversar diretamente com elas.
Aí entram em cena robôs, assistentes pessoais e a inteligência artificial.
Eles são capazes de oferecer tudo o que um “amigo” representa hoje numa conversa.
Sem a parte chata, é claro.
_
turlke8_
Comparando os dois livros achei a autora agora um pouco menos pessimista. Ainda assim as críticas dela são bem contundentes.
Tendo a achar a visão dela um pouco exagerada e determinista.
Comunicação é um processo vivo. E, desde que começamos a trocar ideias e sentimentos, no tempo das cavernas, a tecnologia nos acompanhou nessa jornada.
Concordo que é importante refletirmos sobre os efeitos digitais no campo da comunicação. Mas não vejo as transformações como fim do mundo. Perdemos por um lado, ganhamos por outro.
Se quiser saber um pouco mais o que penso podemos marcar um papo.
Pelo WhatsApp ou pessoalmente.

Rafael Coimbra

 

 

 

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s