BREAKING NEWS! NÃO… PERA AÍ…

O conteúdo exclusivo, em primeira mão, sempre foi um dos grandes objetivos perseguidos pelos jornalistas. O furo é sinal de que o trabalho foi bem feito e gera credibilidade. Para quem trabalha com notícias representa algo importantíssimo. Mas será que para o público a relação é a mesma?
No fim de março o jornal britânico “Times“anunciou que não publicaria mais notícias em tempo real no site e no aplicativo. Agora só atualiza o conteúdo duas ou três vezes ao dia. Claro que, havendo uma notícia bombástica, a cobertura passa a ser feita em tempo real. Mas só se for muito importante. De resto, o objetivo do jornal é aprofundar assuntos considerados relevantes.
A decisão do jornal é mais uma adaptação ao conceito de “manchete”. E talvez seja também uma constatação de que a forma como o público percebe um furo mudou nos últimos anos. Considero alguns fatores:

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Copy / Paste

Antigamente o furo podia ser mantido por um bom tempo até a publicação do jornal impresso ou o telejornal entrar no ar. Hoje é preciso noticiar imediatamente, sob o risco de perder manchete. Acontece que nesse processo veloz todos os veículos de comunicação estão de olho nos concorrentes. Basta que um furo seja publicado e todos passam a replicar a novidade. Mesmo que o crédito seja dado a quem publicou a notícia primeiro a avalanche de copy/paste tira em pouco tempo a característica de exclusividade do autor do furo.

Redes Sociais

Diversas pesquisas mostram que grande parte da população hoje se informa primeiramente pelas redes sociais. É comum ouvir alguém dizer: “Li no Facebook” ou “Me mandaram por WhatsApp”. Muitas vezes a pessoa não confere a fonte da informação. Simplesmente confia porque a notícia foi publicada por alguém que conhece. Para muitos, o furo passa a ser pessoal. Ganha crédito na rede a pessoa que publicar primeiro, tanto faz o veículo autor da notícia.

Banalização

Lembro quando a onda do “tempo real” chegou ao Brasil. Os colegas de sites tinham “cotas” de matérias por turno de trabalho. Antes de escreverem a reportagem completa de um evento precisavam abastecer o site com notícias em tempo real. O que faziam? Picavam a notícia publicando mini notas do tipo “O ministro acaba de chagar para a palestra…” Uma hora depois: “O ministro diz que a inflação vai ficar dentro da meta”… e por aí vai. Tudo tinha cara de furo. As TVs começaram a forçar a barra também. Quando estive na CNN, em 2011, havia um debate sobre a banalização do breaking news. Quase tudo entrava com tarjas e vinhetas de breaking news. A TV sabia que estava exagerando no uso do recurso e, tempos depois, passou a diminuir.

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Hierarquia

Uma consequência do excesso de “breaking news” foi a mudança na hierarquia das notícias na primeira página dos sites. A informação mais importante passou a ser a mais recente. Isso quebrou a tradição jornalística de estampar na primeira página as notícias por ordem de importância. O consumo de notícias era frenético. Todo mundo dando F5 no browser para ver se aparecia algo novo. Mas a compreensão por parte do leitor era prejudicada já que o mais importante mudava em poucos minutos. Hoje em dia os sites voltaram a destacar grandes assuntos. E o leitor ainda tem a opção de acompanhar por ordem cronológica se quiser.

Overload de informações

Outro componente que entrou em cena foi o fluxo absurdo de informações. Já falamos sobre isso no primero post do Labmídia. Mais do que notícias frescas, embaladas no rótulo de breaking news, as pessoas querem entender o que está acontecendo, precisam de contexto. Também preferem, muitas vezes, delegar o papel de curadoria para os jornalistas. Já escrevi sobre isso também aqui no Labmídia. Acredito que o jornalismo vai ter um papel cada vez maior nessa linha, o que não deixa de ser um resgate de um dos pilares originais da profissão.

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Fim do monopólio

Atigamente o breakingnews era exclusivo dos jornalistas. Só eles tinham condições de registrar e publicar um fato inédito e importante. Hoje qualquer um com smartphone na mão pode flagar algo relevante e publicar, sem sair do lugar, numa plataforma de alcance mundial. Os grandes veículos de comunicação devem trabalhar cada vez mais em parceria com o público para dar visibilidade a registros importantes._

 

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E o futuro?

Uma tendência no curto prazo é a personalização dos breaking news. A CNN acaba de anunciar um sistema em que o público pode interagir com um robô e obter a notícia em primeira mão da forma que desejar. À medida em que a inteligência artificial evoluir vamos deixar que as máquinas se preocupem com o que é importante para cada um de nós. Seja uma notícia de impacto mundial (por exemplo, um atentado terrorista) ou o nascimento do filho.

(Rafael Coimbra)

 

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4 comentários sobre “BREAKING NEWS! NÃO… PERA AÍ…

  1. Nessa era maluca de hiper informação, continuaremos precisando de analistas e “detetives”. Ou seja, eu concordo que o papel de análise será prioritário para o futuro da imprensa, mas acho que vale acrescentar o papel investigativo. A pessoa comum, na maioria das vezes, irá publicar e compartilhar notícias de interesse geral que sejam, digamos, óbvias, claras, com grande conteúdo de imagem, provavelmente. Para investigar, entender os meandros, fazer relações, “cavar” a notícia, ainda precisamos da imprensa. Coisa que, aliás, a imprensa brasileira faz pouco. Ou estou enganado?

    1. Há um esforço grande para manter o jornalismo investigativo. É um trabalho que exige tempo e custa muito. Uma das soluções é o trabalho em parceria,
      como aconteceu no caso do “Panama Papers”.
      O financiamento do jornalismo é um dos maiores desafios atuais da profissão.

  2. Interessante. Cada vez mais seguir nas redes sociais as pessoas certas ou os veículos mais relevantes parece ser o caminho. Buscar curadores de conteúdo que tenham relevância para os assuntos que despertem nosso interesse. Ou por outro lado, construir uma base de trabalho onde façamos essa curadoria.

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