NÃO SEJA UM BOLHA

É bem provável que você tenha acompanhado a polêmica recente envolvendo o Facebook nas eleições americanas. Em resumo, a plataforma é acusada de permitir que informações falsas sejam publicadas e compartilhadas livremente. O próprio dono da empresa falou sobre o assunto.
Outra reclamação é que o tal do efeito “filtro bolha” está cada vez mais forte e deturpando a “realidade”. Muita gente se informa primeiro pelas redes sociais (às vezes exclusivamente por elas) e acha que o feed de notícias é um retrato fiel do mundo.
Minha proposta aqui é entrar no debate por um ângulo diferente: em vez de por a culpa apenas nas empresas e na tecnologia (Google também está sendo questionado) precisamos refletir nosso papel diante desse processo.

O pano de fundo de toda essa discussão é o que tenho chamado de Hiperatenção. E ela tende a se agravar com a Hiper-realidade. Ou seja, é o esforço que precisamos fazer atualmente para capturar informação relevante em meio ao tsunami de dados. Esse é um assunto recorrente desde o primeiro post do Labmídia.
O que temos observado é que:

“Se por um lado a democratização dos meios de comunicação facilitou a publicação de conteúdo por qualquer pessoa, por outro gerou uma quantidade tão grande de dados que é cada vez mais difícil absorver informação útil.”

Lembre-se que existe uma diferença entre dados, informação, conhecimento e sabedoria.
Dado é algo que não faz sentido pra gente. Por exemplo, bits que são trocados entre smartphones, a partir de comandos na tela.
Informação é algo inteligível, ainda que seja descartável. Exemplo, um texto que você é capaz de ler mas não presta muita atenção no que está ali.
Conhecimento é a informação que você absorveu e vai guardar para usar em algum momento.
E, por fim, sabedoria é a forma como você usa esse conhecimento acumulado.
Note que percorrer esse caminho todo não é uma tarefa simples. Exige cada vez mais esforço.

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“Geramos um volume absurdo de dados e informações. Mas pouco conhecimento e sabedoria”

A primeira conclusão, portanto, é que a afirmação romântica de “quanto mais, melhor” não é tão correta assim no campo da comunicação. Os efeitos colaterais são imensos e muitas vezes prejudiciais.

Parte desse movimento acontece porque estamos na “Era do Posicionamento“. Sentimos a necessidade de postar o tempo todo. Só que, na maioria das vezes, geramos apenas dados e informações. Ninguém presta tanta atenção assim ao prato de comida que colocamos no Instagram (a não ser que você seja uma bloggeira fitness).
Ao mesmo tempo, como não há tempo, compartilhamos notícias sem nem mesmo ler o que está no corpo da matéria. Vemos o título e pronto. Passamos pra frente. Pesquisas mostram que essa é uma tendência. O problema é que muitas dessas notícias são falsas. E estamos perdendo a capacidade de diferenciá-las das verdadeiras. Ou simplesmente ignoramos a verdade, assumindo a “pós-verdade“.
Em resumo: geramos muito lixo virtual. Se quisermos contribuir pra melhorar a comunicação em rede precisamos pensar duas vezes antes de publicar ou compartilhar algo.

narcism

Outro fenômeno alimentado por nós mesmos é o tal do “filtro bolha”. Vivemos cada vez mais num ambiente virtual em que recebemos apenas material que nos agrada. Esse efeito é criado pelos algorítimos das empresas digitais. Funciona assim: tudo o que você faz em rede é monitorado por sites e redes sociais. Cada busca, cada postagem, cada compartilhamento. As empresas usam esses dados pra fazer com que fiquemos o maior tempo possível usando os serviços delas e, assim, faturar com propaganda. Qual a melhor maneira de prender sua atenção? Publicando conteúdo que você gosta.
Mas, lembre-se, quem forneceu os dados para a empresa foi você! De maneira consciente ou não, todos somos responsáveis pela criação de uma personalidade virtual. Desde hábitos de consumo até posições ideológicas.
Por exemplo, quando você bloqueia um “amigo” por discordar da visão política dele e, ao mesmo tempo, curte um “amigo” que pensa de forma parecida, você está tornando o seu ambiente virtual mais “agradável”. Eliminou o chato e reforçou o laço de “amizade”com quem pensa igual. Acontece que, ao fazer isso, você “ensinou” a inteligência artificial  o que mais importa pra ela: o que te agrada ou não. A partir daí a sua “realidade” vai ser construída prioritariamente em cima do que te faz feliz. De certa forma é bom. Mas…

“O que aparece na frente da tela não é a realidade do mundo. É uma parte dela, feita pra te agradar”

bubble

De novo: essa realidade virtual é criada pelas empresas. Mas, quem fornece os dados para elas, somos nós. Portanto, viver numa bolha é, em parte, uma escolha nossa, ainda que não nos toquemos disso, num cenário de hiperatenção.
Se quisermos furar a bolha e enxergar o mundo lá fora precisamos deixar de ser bolhas.

(Rafael Coimbra)

 

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