HOMO ZAPIENS

Tem um livro bem interessante chamado “A vida secreta das árvores”.
O subtítulo revela “o que elas sentem e como se comunicam”.
O ponto central é que existe uma forma complexa e extensa de interação entre as árvores. Isso acontece no plano subterrâneo, ou seja, imperceptível para nós humanos.
É quase uma internet das plantas sob os nossos pés.
Fiquei com essa ideia na cabeça refletindo sobre o fenômeno WhatsApp no campo dos debates.
Algumas pontos para pensar…

Rede Social ?

Ainda há quem considere o WhatsApp um aplicativo de comunicação ponta a ponta e não uma rede social.
É verdade em parte.
Mas, pegando a metáfora das árvores, o WhatsApp se expandiu de uma forma que hoje não há mais dúvidas de que se comporta como uma grande rede social.
Já em 2014, aqui no Labmídia, usei o termo “micro rede social” para descrever o WhatsApp.
O que não estava claro naquele momento era a conexão dessas micro redes em larga escala e a formação de algo novo no mundo digital.
Agora percebe-se que elas evoluíram para uma estrutura gigante com características próprias.

image
Camadas

Vou continuar na metáfora das árvores e comparar o WhatsApp com outras redes.
De cima para baixo…

O Twitter seria a copa da árvore.
É a rede mais exposta de todas pois qualquer um pode ver o que está acontecendo.
Tem a dinâmica parecida com a do WhatsApp: mensagens curtas e – quase sempre – efêmeras.
Mas exige um posicionamento público que, muitas vezes, distancia o “ser” do “parecer ser”.
Quem se expressa no Twitter sabe que está sendo avaliado por “todo mundo”.
Então das duas uma: ou se posiciona legitimamente – com muita convicção – ou adapta o discurso para ser melhor percebido pelos outros.

O Facebook seria o tronco da árvore.
É mais lento, rígido e deixa marcas de longo prazo.
Hoje é praticamente sinônimo de identidade pessoal, uma vez que não é anônimo.
Uma opinião lá tem valor simbólico muito forte, quase uma confissão, um testamento.
A diferença em relação ao Twitter é que, para a maioria das pessoas, a exposição se dá em um círculo menor de pessoas, geralmente mais próximas.
Como os “amigos” tem lá suas diferenças de pensamento, para não criar atrito, é cada vez mais comum não se expor no Facebook (e no Twitter) e submergir para o WhatsApp.

O WhatsApp representaria as raízes da árvore.
Por operar no “subsolo” da internet é praticamente invisível aos olhos da maioria.
Apenas um grupo muito restrito, de pessoas com afinidades parecidas, é que conduz a narrativa.
A vantagem é poder participar de várias raízes (grupos) ainda que conflitantes, sem que umas saibam das outras.
Essas informações fragmentadas se misturam em grande quantidade e num ritmo veloz.
Por isso é difícil é enxergar a soma do todo.

networking-diagram-istock78035909

Confiança

Além da menor exposição pública, outro fator que leva as pessoas a descerem para o plano do WhatsApp é a confiança.
Desde o início da década de 20 (do século atual) acentuou-se a desconfiança pelas instituições tradicionais em vários países.
E, no campo das redes sociais, o escândalo Facebook-Cambrige Analytica fez muita gente prestar atenção no que a plataforma entrega.
Se passamos a desconfiar de instituições e dos algoritmos só nos resta procurar pessoas conhecidas, de carne e osso.
É aí que o WhatsApp aparece como solução: confiança na família, amigos e colegas de trabalho.
Se recebemos a mensagem de alguém que confiamos tendemos a dar um peso maior para ela.
Ainda que muitas das mensagens no WhatsApp sejam repassadas por fontes desconhecidas, a sensação é de ela ter sido chancelada por alguém próximo.
Pra muita gente isso já é o suficiente.

Nós contra eles

Grupos pequenos reforçam a relação de confiança.
É um comportamento tribal.
Momentos caóticos – como o que atravessamos –  geram insegurança.
E nossa tendência natural é buscar abrigo junto de quem está mais próximo.
Na dúvida optamos pelo conhecido.
Isso vale para padrões e pessoas.
É muito mais emoção do que razão.

STREAM-jumbo

Câmaras de eco

Outro impacto do WhatsApp é amplificar o viés de confirmação.
A tendência é buscarmos informações que corroborem nossa linha de pensamento.
Refletir – e eventualmente mudar de opinião – é custoso para o cérebro.
Quanto mais lemos e ouvimos o que queremos, mais nos sentimos bem.
Ao mesmo tempo o espaço para o contraditório diminui.
A dinâmica do WhatsApp reforça o efeito “câmara de eco”.
O melhor jeito de furar as bolhas é exercitar a empatia.
Se colocar no lugar do outro é difícil, mas o mecanismo é eficiente.
Por mais que pareça absurdo, em vez de sair de um grupo ou excluir alguém tente entender como o outro pensa e sente.

Memético

O volume de informação que nos chega é cada vez maior.
Para lidar com isso buscamos mensagens simples.
Mais fácil produzir ou ler um meme que um textão.
Mais prazeroso “lacrar” que debater.
O compartilhamento também está a um clique.
Mais simples confirmar uma ideia já pronta do que construí-la.

eco

Fragmentos

Grande parte da informação não chega mais de forma exclusiva, de cima pra baixo.
Ela é distribuída de maneira fragmentada, horizontalmente.
E muitas vezes nasce debaixo para cima.
A partir desse conjunto de fragmentos cada pessoa passa a construir a própria imagem do todo.
Daí a dificuldade de enxergar o que o outro vê, de entender como alguém consegue pensar tão diferente.
É ilusão achar que todos tem acesso às mesmas informações e as consomem da mesma forma, por isso existiria uma verdade única (a nossa).

1_2m7lq1MIw5jlaEnSJIU4rA.jpeg

Junk info

Quando a internet surgiu havia uma utopia de que um dia a informação seria distribuída de forma igualitária, criando um equilíbrio digital.
Hoje existe muita informação disponível. Mas quantidade não significa qualidade.
Muito do que circula na rede é tóxico.
Se os nutrientes forem ruins as árvores crescem tortas.
Uma floresta saudável depende de diversidade e colaboração.
A floresta digital somos nós.

(Rafael Coimbra)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s