DORMINDO COM O INIMIGO ?

 

Quem diria.
9 gigantes do jornalismo de mão dadas com o Facebook.
O anúncio foi feito na semana passada.
O Instant Articles promete publicar reportagens de forma mais rápida e atraente.
Ter matérias vistas e compartilhadas no Facebook não é novidade.
Até porque o FB não produz nada. Só distribui.
Mas o fato é que várias pesquisas mostram a rede social de Zuckerberg se tornando a primeira página de muitos sites e a principal forma de se chegar a uma notícia.
Como já comentamos, aqui no Labmídia, as homepages estão com os dias contados.
O formato visual mais bonito também não chega a ser uma coisa fantástica. É natural que todos busquem tornar a experiência de leitura mais agradável.
Pra mim, o que chama mesmo a atenção, é uma aliança até pouco tempo improvável.
Os grandes produtores de conteúdo se unindo aquele que até pouco tempo era um inimigo mortal.
Apesar dos artigos circularem, faz tempo, no Facebook, quem publicava e compartilhava os links, era o público.
Agora, são as empresas de jornalismo que vão enviar o material diretamente para o FB.

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Num primeiro momento, a impressão é que todos saem ganhando. Será?
Do lado do Facebook só há motivos pra comemorar.
O que a rede social mais quer é pessoas gastando tempo dentro dela, e assim lucrar com publicidade. E nada melhor do que conteúdo de qualidade.
Já os produtores, provavelmente, gostariam que o material fosse acessado diretamente em seus sites, sem intermediários.
Mas, é aquilo, não dá pra continuar lutando contra a corrente.
O Facebook é tem uma audiência de 1.4 bilhões de pessoas. Que site no mundo consegue isso?
Ou seja, penso que, do ponto de vista dos sites jornalísticos, não foi um movimento intencional, e sim uma questão de necessidade.

Enquanto o projeto está em fase de teste, vamos analisar alguns pontos importantes.

Produção x Distribuição

Talvez esse seja o movimento mais disruptivo e menos comentado até agora.
Se o projeto for pra frente, o jornalismo entra em uma nova era.
Muitas das grandes empresas de conteúdo vão deixar de ser, simultaneamente, produtoras e distribuidoras, terceirizando a segunda parte para o FB.
Pense bem. No extremo, não será mais preciso jornal (de papel e digital). Basta produzir as reportagens e deixar que o FB entregue da melhor forma possível.
A estratégia pode até reduzir custo e ser mais eficiente.
Mas os produtores de conteúdo correm o risco de perder completamente o contato direto com o público fiel às publicações.

Grana

O acordo inicial prevê que as empresas de jornalismo possam fazer publicidade dentro dos artigos, e ficar com 100% da receita. Ou delegar essa parte para o FB e ficar com 30% do lucro gerado com a propaganda.
É a mesma estratégia adotada pela Apple quando transformou, de vez, o mercado da música.
A princípio, parece ser uma boa ajuda para aliviar a crise financeira do jornalismo mundial.
O risco está numa eventual mudança de política por parte do FB.
Imagine migrar todo o sistema para a rede social e, de repente, as regras do jogo mudarem.

Público x Algorítimos

No fundo, tanto os produtores de conteúdo, quanto o Facebook, estão em busca de audiência.
A questão é que, no modelo tradicional, o público alvo é amplo.
E a decisão do que deve ser publicado – e o destaque de cada assunto – parte de um conselho editorial.
No FB, os computadores analisam constantemente o comportamento das pessoas. Por isso, conseguem entregar conteúdo mais customizado, a partir dos gostos de cada um.
Além disso, o FB pode privilegiar artigos que tenham alto potencial de compartilhamento (viralidade).
Assuntos importantes, mas sem grande capacidade de gerar discussão, podem acabar sumindo da rede. Em contrapartida, temas idiotas, mas populares, vão ter mais chance de ser publicados.
Ou seja, existe o risco da perda de controle editorial por parte dos jornalistas.

Filtro Bolha

Outro risco, já comentado várias vezes aqui no Labmídia, é o do Filtro Bolha.
Quando estamos no FB temos a impressão de que o mundo é representado pelo nosso feed de notícias. Mentira. É só parte da realidade, construída para nos agradar.
Se o Instant Articles tiver sucesso, o efeito do Filtro Bolha deve ser amplificado.
Não só pela influência dos algorítimos, mas também pelo pelo afastamento da Web.
A medida em que o Facebook se tornar “A Internet” (como um dia o Google quase já foi) nossa percepção de mundo vai mudar.
O FB tem projetos, inclusive no Brasil, de dar “internet” graça a quem não tem condições de pagar pelo serviço.
Acontece que, a “internet” do FB é um ecossistema cada vez mais fechado. Se as pessoas não precisarem sair da rede social para ler notícias, o controle do FB, e consequentemente o efeito do Filtro Bolha, tende a aumentar.

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Tempo

O FB está de olho nos dispositivos móveis. Quer que o público tenha uma leitura agradável e rápida.
Um dos argumentos para otimizar os artigos jornalísticos foi o tempo de carregamento das páginas.
Segundo o FB, o tempo médio de abertura de uma página é de 8 segundos, enquanto a tolerância máxima seria de 2 segundos. O Instant Articles, como o nome sugere, vai permitir o acesso quase instantâneo da página.
Ok. Parece interessante.
Mas fico na dúvida do efeito final.
De um lado, a facilidade de leitura tende a prender a atenção, levando o público a permanecer mais tempo no artigo. A ideia é que os textos sejam recheados de fotos, vídeos, mapas e gráficos (bem parecido com o visual do Paper, outro projeto do FB).
Ao mesmo tempo, a facilidade de acesso pode levar o leitor a querer “zapear” os artigos. Nesse caso, pode acontecer um processo de semelhante ao dos vídeos e da propaganda no ambiente online. Em vez de reportagens densas, cheias de detalhes, os artigos correm o risco de ficarem curtos, imediatistas, com o objetivo de capturar a atenção do leitor logo de cara.

Enfim, o Instant Article pode ser visto como uma Arca de Noé, e salvar os grandes produtores de conteúdo. Ou como um Cavalo de Tróia, destruindo alguns pilares do bom jornalismo.

Nos dois casos, os efeitos vão durar bem mais que 2 segundos.

(Rafael Coimbra)

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